A Fundação do Shorinji Kempo
A trinta e seis quilômetros a oeste da cidade de Takamatsu, na ilha de Shikoku, localiza-se a cidade de Tadotsu, com população de 20000 habitantes. Depois da derrota japonesa na segunda guerra mundial, Doshin So (ver foto ao lado), o fundador (daqui em diante nos referiremos a ele como "Kaiso", que significa "o fundador") voltou da China e, em 25 de outubro de 1947, ele fundou o Shorinji Kempo naquela cidade.
O Kempo antigo traça suas origens à Índia, onde, há quase 5 mil anos atrás, era uma eficiente arte utilizada pelos monges para defesa pessoal. Muitas das técnicas básicas ainda hoje são observadas, mas a forma atual difere bastante da arte original indiana. Na Índia, uma forma bastante primitiva de Kempo existiu há aproximadamente 5 mil anos atrás. Quando da fundação do Budismo, o Kempo já estava organizado e formulado como uma arte padronizada. Segundo a tradição, o Kempo foi incorporado ao Budismo, devido à sua eficiência na unificação de corpo e mente.
Esta arte foi introduzida na China por volta do século VI, quando o 28º patriarca tradicional do Budismo viajou da Índia à China com o objetivo de transmitir ao povo chinês os verdadeiros ensinamentos de Buddha.
Na China, Boddhidharma viajou até o reinado de Wei e finalmente fixou-se no Shorinji (Shaolin-sul), um monastério nas proximidades da montanha Hao-shan, onde hoje é a Província de Honan.
O Budismo ensinado naquele monastério eventualmente veio a ser conhecido como Ch'an, ou Zen em sua tradução japonesa. O Kempo praticado no Shorinji era originalmente guardado secretamente e somente era ensinado àqueles que juntavam-se ao monastério budista, uma vez que o Kempo era então considerado inseparável do Zen.
Através de várias destruições do templo por imperadores que temiam o poder do monastério, os monges sobreviventes abandonaram o templo, levando consigo a arte do Kempo, que passou a ser transmitida, então, para o povo chinês, como um instrumento de resistência popular contra a opressão dos governantes.
O Shorinji Kempo moderno é fruto do trabalho de Doshin So que, antes da Segunda Guerra Mundial, viajou à China onde estudou os fragmentos remanescentes e dispersos do Kempo Chinês. Em Pequim, o Kaiso (palavra japonesa para designar o "Fundador" do Shorinji Kempo) Doshin So estudou sob a orientação de Wen-Lanshi, o líder da North Shorinji Ihermen-thuen. A instituição havia preservado o Kempo de uma forma parecida com a forma ortodoxa da linha do Shorinji do Norte. Como Doshin So era o único discípulo e que demonstrava uma dedicação especial no aprendizado e, como Lanshi estava preocupado com o futuro desaparecimento de sua arte, em uma cerimônia realizada no Templo Shorinji, Doshin So tornou-se o sucessor direto e oficial de Wen Lanshi.
"A pessoa, a pessoa! Tudo depende da qualidade da pessoa!"
Com o fim da Segunda Guerra e, estando o Kaiso na China, sob o domínio do exército de ocupação russo, ele compreendeu algo que mudaria o seu destino. Ele percebeu que não eram as diferenças religiosas, políticas e culturais entre as pessoas que determinavam o rumo dos acontecimentos, mas sim a qualidade das pessoas envolvidas. Tudo, enfim, dependia da qualidade das pessoas e todas as ações, boas ou más, originavam-se das pessoas.
Em 1946 veio a repatriação e Kaiso, juntamente com outros japoneses que viviam na China, foi enviado de volta a seu amado Japão. Porém, quando lá chegou o Kaiso encontrou um país destruído, onde o povo havia perdido a esperança no futuro, não havia mais a preocupação com os valores morais que antes eram os pilares da sua nação. Os jovens estavam sem perspectiva e buscavam apenas a satisfação instantânea de seus desejos, sem preocupar-se com a reconstrução de seu país em ruínas.
Então o Kaiso determinou-se a dedicar o restante de sua vida a ajudar seu povo a reconstruir seu país, a recuperar a auto-estima e a confiança no futuro. Fundou então uma escola, na cidade de Tadotsu, Província de Kagawa, Ilha de Shikoku, onde passou a ensinar um modo de vida baseado nos ensinamentos originais de Buda. Mas ele logo percebeu que palavras e teorias, sem expressão na ação, não atraíam a atenção dos jovens e não diferenciavam-se muito de outras religiões que pregavam a salvação através da submissão. Então ele incorporou em sua escola a arte marcial que ele havia praticado na China, reestruturando-a, remodelando-a, dando-a a objetividade, uma característica do povo japonês. Passou então a ensinar, de um lado o Kongo Zen, filosofia religiosa baseada nos preceitos fundamentais dos ensinamentos de Buddha, e de outro a arte marcial do Shorinji Kempo. O objetivo de Kaiso era ajudar no desenvolvimento de quantos jovens fosse possível que possuíssem coragem, determinação, sentimento de justiça, compaixão e vontade de mudar, para que pudessem influenciar positivamente na reconstrução do Japão e na recuperação de seus valores.
O Shorinji Kempo no Brasil
O Shorinji Kempo foi introduzido no Brasil pelo Mestre Matsuo Ushida, que veio do Japão na década de 70 com o intuito de aqui viver e de difundir esta arte marcial em nosso país. Mestre Ushida fundou então a Filial Porto Alegre, na capital Gaúcha, onde passou a transmitir esta arte a seus discípulos. Dentre Seus primeiros discípulos estão o sensei Odilon Gomes Santiago, Mestre da Filial Porto Alegre Norte, o sensei Marcus Antônio Possera, sucessor de Mestre Ushida na Filial Porto Alegre, e o sensei Clóvis Guimarães de Souza, Mestre da Filial Passo Fundo e pioneiro na divulgação do Shorinji no interior do Estado.
No Brasil a WSKO tem como seu representante Clóvis Guimarães de Souza, Seikenshi, 4º dan, Mestre da Filial Passo Fundo, no Planalto Médio.
O Símbolo do Shorinji Kempo
Manji - significado e estrutura
O caracter que simboliza o Shorinji Kempo chamama-se "Manji". No Oriente, Manji é freqüentemente utilizado para representar templos budistas em mapas, e é popularmente entendido como um símbolo que identifica o Budismo. Mas, o símbolo, em si, é mais antigo que o Budismo e possui um significado profundo.
Manji representa a fluidez do universo e a criação da vida. Os opostos que organizam os nossos pensamentos estão em aparente oposição: céu e terra, dia e noite, positivo e negativo, homem e mulher, Sul e Norte, Verão e Inverno, fogo e água, e muitos outros. No entanto, cada um mantém a sua própria natureza distinta, ao mesmo tempo em que procura relações harmoniosas com o seu oposto. A forma do Manji é reflexo disto. A linha perpendicular une simbolicamente o céu e a terra, enquanto a linha horizontal une a luz e a escuridão. As duas linhas unidas formam uma cruz que representa o universo em harmonia para lá dos limites do tempo e espaço, e do qual vem o poder que cria e protege todas as coisas. As linhas do rasto provocadas pela rotação da cruz representam a sabedoria de que o universo, e todas as coisas nele contidas mudam constantemente, nunca atingindo um estado de permanência.
Manji transforma-se num círculo
Depois de uma prática saturada, estamos prontos para compreender que nós próprios constituímos parte vital do fluxo e mutação do universo, e para descobrir um valor e um significado profundo em viver. Isto nos permite atingir um estado mental pacífico e imutável, conhecido no Zen como “satori”, ou iluminação. O satori é alcançado através de uma união com a fundação do universo. Quando uma pessoa atinge o satori, as inter-relações que Manji representa podem percebidas de forma completa, e o Manji toma-se um círculo.
Omote Manji e Ura Manji
As diferenças entre Omote Manji e Ura Manji
Omote ("parte da frente", ou "lado esquerdo") Manji representa “misericórdia infinita”, ou “o amor em Dharma que penetra o universo e protege todas as coisas”. Ura ("parte de trás", ou "direita") Manji representa “intelecto ou força”. Diz-se que os chineses retiraram do Ura Manji o seu símbolo para designar "força". Embora Omote Manji e Ura Manji sejam habitualmente usados lado a lado no Budismo, o Manji usado nos uniformes do Shorinji Kempo no Japão e em muitos países estrangeiros é Omote Manji.
Manji simboliza o espírito do “Riki Ai Funi”
A harmonia dos opostos simbolizada no Manji inclui a harmonia do intelecto com a misericórdia, e a harmonia da força com o amor. Esta harmonia está representada coração do Kongo Zen através do princípio Riki Ai Funi, um princípio que também nos dá orientação quanto à forma como devemos praticar e utilizar as técnicas de Shorinji Kempo. Compreender as verdades representadas pelo Manji é vital para compreender o coração do Kongo Zen.
NOTAS
(1) Do Sânscrito Antigo
Manji era originalmente um símbolo sânscrito que significava "remoinho de vento", "boa sorte", "fundação da vida", e "universo em constante mutação". Depois da morte de Buda Manji foi gravado em pegadas na pedra que marcam lugares onde, supostamente, Buda estivera e em estátuas que o representam.
(2) O uso do Manji no Ocidente
Manji foi igualmente usado no Ocidente como símbolo de boa sorte. Na sua utilização religiosa, Manji significava Luz, Vida, Amor e Liberdade.
(3) A suástica nazista
Os nazistas eram um partido político liderado por Adolfo Hitler na Alemanha. Eu 1933, subiram ao poder e iniciaram uma autocracia que levou o país iniciar a II Guerra Mundial na Europa e África. Durante a guerra, os nazistas foram responsáveis pela execução de mais de seis milhões de pessoas pertencentes a grupos como o povo judeu e o povo cigano, bem como comunistas, homossexuais e outros, que os nazistas pretendiam perseguir até a extinção. Este partido rodou Ura Manji da força e usou-o como um símbolo para proveito próprio. Esta utilização errada do Manji levou aqueles que tiveram contacto com os nazistas a sentirem-se naturalmente incomodados com este símbolo. No entanto, um estudo adequado da história do Manji esclarecerá que o seu significado é completamente diferente do da suástica. O Shorinji Kempo não tem nem nunca teve qualquer afinidade com a ideologia do partido nazista.
Doshin So, “Shorinjo Kempo – Fukudoku-Hon”, p. 62-3, © Nipon Shorinji Kempo Federation.
Fonte: Website das filiais São Paulo e Liberdade




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